Sob uma c√ļpula, como uma grande semiesfera emborcada sobre sua cabe√ßa, voc√™ v√™ uma mir√≠ade de corpos celestes num c√©u extraordinariamente limpo, sem nuvens ‚Äď e pode at√© ‚Äúse aproximar‚ÄĚ e alguns deles, observando em detalhes que voc√™ nem imaginava que existiam. E n√£o. Voc√™ n√£o est√° olhando atrav√©s de um telesc√≥pio.

Muitos planet√°rios, assim como os observat√≥rios, se caracterizam externamente pela c√ļpula, mas, note bem, a dos planet√°rios n√£o se abre para o c√©u. O espet√°culo todo acontece l√° dentro. No interior de um planet√°rio muitas vezes tamb√©m h√° um instrumento complexo, situado bem no meio daquela sala circular. Mas nos planet√°rios a c√ļpula inteira age como uma tela de proje√ß√£o.

Interior de um planet√°rio. Foto de Patricia e Phillip Frost (Museum of Science).

E ao contr√°rio do observat√≥rio, quer chova l√° fora ou n√£o, o planet√°rio funciona, mostrando uma simula√ß√£o do c√©u noturno. E n√£o √© uma simula√ß√£o qualquer. Um planet√°rio tamb√©m age como uma m√°quina do tempo, permitindo acelerar ou atrasar os ponteiros do rel√≥gio, fazendo com que minutos, horas ou anos passem muito r√°pido. Tamb√©m pode fazer voc√™ se sentir numa grande nave, que o leva a ver o c√©u de diferentes lugares da Terra ‚Äď ou do espa√ßo sideral.

Por que Astronomia?

Os planet√°rios fazem uso da Astronomia para divulgar ci√™ncia. Por que Astronomia? Porque essa ci√™ncia possui uma particularidade √ļnica: a Astronomia engloba muitas outras ci√™ncias, transformando-se no mais interdisciplinar de todos os ramos do conhecimento humano.

Por meio da Astronomia podemos falar de Física, Matemática, Química ou Biologia de forma natural, transitando por cada uma delas sem fronteiras, sem a separação em disciplinas que o ensino tradicional acaba determinando na percepção dos estudantes.

Isso acontece porque o objeto de estudo da Astronomia √© o pr√≥prio Cosmos, ou seja, √© tudo o que existe. Talvez seja (tamb√©m) por isso que, hoje, os planet√°rios n√£o mostram mais apenas o c√©u estrelado. Pouco a pouco eles est√£o se transformando em ‚Äúteatros de visualiza√ß√£o digital‚ÄĚ.

Se voc√™ visitar um deles, √© poss√≠vel que saia sem ter visto uma √ļnica constela√ß√£o projetada na c√ļpula, mas tendo viajado ao tempo dos dinossauros, conhecido o mundo subaqu√°tico ou o estranho universo das c√©lulas e das part√≠culas ainda menores que as comp√Ķem. Entre in√ļmeras outras possibilidades.

Incompar√°vel

O fato √© que n√£o importa se voc√™ visita as instala√ß√Ķes de um moderno equipamento digital ou de um modelo ‚Äúcl√°ssico‚ÄĚ. O planet√°rio √© um aparelho did√°tico-pedag√≥gico incompar√°vel e sua evolu√ß√£o tecnol√≥gica apenas consolida sua capacidade de percorrer tantas √°reas do conhecimento humano, preenchendo lacunas da forma√ß√£o tradicional e, sobretudo, inspirando jovens e adultos na busca pelo saber.

O Brasil ainda est√° aprendendo a reconhecer o valor dos planet√°rios

O Brasil ainda est√° aprendendo a reconhecer o valor dos planet√°rios. Apesar do primeiro deles ter sido inaugurado em 1957 ‚Äď e de percebermos um not√°vel acr√©scimo na √ļltima d√©cada, eles ainda s√£o relativamente poucos e mal distribu√≠dos. Assim como outros espa√ßos para difus√£o do conhecimento cient√≠fico e tecnol√≥gico.

A boa notícia é que isso está mudando. E se depender de nós, planetaristas (como são chamamos os que trabalham com Educação no ambiente dos planetários) não vai faltar vontade de continuar espalhando esse semente, há muito germinada nos países onde a Educação já transformou sociedades para melhor.

Texto de José Roberto V. Costa publicado na edição de estreia da revista Planetaria.