Associação Brasileira de Planetários – ABP Fóruns Planetaristas O conteúdo deve ser flexibilizado para não conflitar com visões religiosas?

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  • Luiz Claudio
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    #6990 |

    Qual é a responsabilidade de um divulgador e educador em astronomia, ou ciência de qualquer tipo, ao lidar com a transmissão da informação quando ela conflita com a visão religiosa do público. Ela deve ser flexibilizada ou omitida para não contradizer a crença de quem está no espaço do planetário para saber mais sobre ciências? Qual seria a postura mais ética?

    RobertoRoberto
    Mestre
    Número de postagens: 8

    A minha experiência com divulgação científica (seja no ambiente dos planetários ou não) já me deu plenas convicções de que devo evitar “colisões” com crenças e filosofias de natureza religiosa ou mística.

    Primeiro porque não é nosso papel “catequizar” para a ciência.

    Segundo porque as crenças das pessoas foram construídas ao longo de muitos anos. São inclusive, na maioria das vezes, tradições familiares. E sabendo que o contato dessas pessoas com o divulgador no campo da Educação Não Formal é geralmente breve e não recorrente (muitas vezes conversamos com pessoas que nunca mais iremos ver novamente), não acho produtivo (nem respeitoso) tentar mudar a crença de alguém durante uma simples visita a um planetário, observatório etc.

    Ary Nienow
    Forista
    Número de postagens: 1

    Prezados
    Tempos atrás atendi dois casais espíritas aqui no Planetário de Porto Alegre. Estavam interessados em conhecer
    a constelação do Cocheiro e sua estrela principal Capela. Não sou muito apegado em religião, mas fiquei cu-
    rioso pelo interesse por tal estrela. Ouvi o relato deles de que, nós terráqueos somos descendentes dos Capelinos que povoaram nosso planeta. A estrela é muito importante para eles. Me contive para não entrar em conflito e optei por respeitar a crença deles. São situações que devemos contornar, pois uma resposta
    científica só iria gerar polêmica e não nos levaria a lugar nenhum.
    Abraços
    Ary Nienow

    Naelton
    Forista
    Número de postagens: 1

    Considero que não devemos alterar o nosso conteúdo científico por conta de religiões. Além de desonesto com nosso compromisso com a verdade científica tenho certeza que não poderemos agradar a todas as correntes religiosas. Creio que não vale a pena é discutir (bater boca) com alunos e visitantes. Se não for possível uma conversa respeitosa e não conivente é melhor o silêncio do tipo: “Esta á visão científica atual sobre o assunto. Respeito o seu direito constitucional a uma visão diferente e o direito de crença mas aqui divulgamos a ciência e não crenças religosas”. Por exemplo: Sou evangélico, tenho minhas convicções religosas mas mantenho distintas as áreas de atuação entre fé e ciência. Sempre que acho conveniente menciono isso para deixar claro que aquela imagem de que todo é cientista ateu e anti-religioso é tão esteriotipada como a figura de que todo religioso é fanático e anti-intelectual. A única coisa que eu posso “pregar” para nossos visitantes é a tolerância ao que pensa diferente. Bom esta é a minha opiniao baseada na minha experiência de vida. Gostaria de ouvir outras

    Leandro L S GuedesLeandro L S Guedes
    Forista
    Número de postagens: 3

    Concordo totalmente com o José Roberto, nosso discurso científico jamais vai gerar influência comparável à de uma tradição familiar ou à de um sistema de crenças que pode ser responsável por manter o equilíbrio emocional de um indivíduo.

    Procuro aproveitar essas oportunidades para destacar ao público (e à mim mesmo!) a questão dos domínios das formas de conhecimento. A ciência lida exclusivamente com o imanente, o objetivo, o observável no sentido mais literal da palavra. Qualquer assunto cuja observação não seja um consenso humano, não pode ser tratado cientificamente.

    A questão “teoria da evolução X criacionismo”, que me parece recorrente foco conflito, pode ser abordada dizendo-se que, objetivamente,temos para lidar com essa questão os fósseis, as observações das variedades de animais e plantas que existem, e as teorias que podemos criar com isso. Qualquer ideia que não venha dessa cadeia de elementos observáveis e teoria não pode ser científica para lidar com a variedade atual da vida.

    Me parece fundamental deixar o visitante confortável acrescentando que o fato de algo não ser científico não o torna necessariamente menor, de forma alguma. A educação científica pode nos ensinar a ser críticos e melhorar a capacidade de discernimento, inclusive se ela for usada para avaliar assuntos que não sejam científicos.

    Acredito que a ética esteja em mostrar essa principal diferenças entre uma ideia científica e outras que podem ser metafísicas, religiosas ou místicas. Não precisamos e não devemos fazer isso passando uma ideia de desrespeito por qualquer outra forma de conhecimento.

    Luiz Claudio
    Forista
    Número de postagens: 7

    Respeito sempre! E ambivalente. Não sei se leram o post anterior, mas no caso a falta de respeito partiu do responsável pela visita. Mas, concordando com o Naelton, e se entendi bem com o Leandro, acho que minha responsabilidade ética é lembrar ao visitante que ele está em um espaço onde a informação oficial que deve ser fornecida é a científica, e que isso de nada invalida suas discordâncias. De forma alguma empreender qualquer embate, mas minha responsabilidade ética com ele, e com qualquer outra pessoa que visite o espaço é passar a informação de forma completa e sem filtros, além da educação e respeito. Mas ser educado e respeitoso, a meu ver, não pode significar omitir ou maquiar a informação.

    Paulo Henrique Colonese
    Forista
    Número de postagens: 1

    Esta questão se aproxima da questão
    COMO DEVE SER O ENSINO RELIGIOSO NUMA ESCOLA?
    A maioria confunde como o ensino de UMA RELIGIÃO – A CRISTÃ, é claro – e, no máximo, deixam os pais decidirem se os filhos participam ou não.

    TUDO ERRADO…

    O ENSINO RELIGIOSO, A ORIGEM DO UNIVERSO, A ORIGEM DA VIDA, A SEXUALIDADE, etc.. são QUESTÕES TRANSVERSAIS, ou seja, QUESTÕES CONFLITANTES.
    E A CIÊNCIA ESTÁ REPLETA DELAS!
    CLONES? ANIMAIS GENETICAMENTE MODIFICADOS?

    Até quando vamos “EVITAR” discutir isto como EDUCADORES com os EDUCANDOS?

    O PAPEL DA ESCOLA E DO EDUCADOR É APRESENTAR O LEQUE DE OPINIÕES E SEUS FUNDAMENTOS com a intenção de que o educando possa ele mesmo decidir e construir sua opinião o mais fundamentada possível.

    Uma vez fiz um CURSO para PROFESSORES, onde apresentei DIVERSAS MITOLOGIAS sobre a ORIGEM DO UNIVERSO, investigando suas origens, e como elas mesclavam OBSERVAÇÕES DA NATUREZA com VALORES E IDEOLOGIAS culturais locais das diversas civilizações.
    Tive 2 professoras evangélicas que saíram no meio da primeira aula.
    Com os 30 que ficaram tivemos ótimas discussões sobre CIÊNCIA, MITOS E CULTURAS.

    A minha única preocupação com relação à sua questão no contexto de uma sessão de planetário. É o tempo.
    Na situação acima que comentei era um CURSO com carga horária bem maior e muito tempo para discussões e debates. Numa sessão de planetário, sem este tempo para discussão, pode ser uma dificuldade abordar estas questões sem o tempo necessário para uma discussão de qualidade.

    Para dar outro exemplo em ensino de ciências, uma aluna de quinto ano perguntou dentro de um projeto sobre Sexualidade que desenvolvemos em uma escola para este ano escolar, “O QUE ACONTECE QUANDO ENGOLIMOS ESPERMA?”
    A professora que trabalhava comigo no projeto queria se jogar pela janela… rsrsrs…
    Mas após respirar fundo pela pergunta inesperada, tivemos uma ótima discussão enfocando aspectos biológicos, aspectos de saúde, aspectos sociais e também aspectos morais. E o que sempre nos guiou no projeto é que não cabe à escola dizer é certo, é errado… Cabe apresentar os aspectos científicos envolvidos e o leque de opiniões, posicionamentos e posturas na sociedade perante o sexo oral. E deixando claro que ela deveria levar tudo isto em consideração ao tomar uma posição à respeito.
    Mas novamente, não era uma ação isolada de um educador, era uma proposta de trabalho de uma equipe de professores que estava desenvolvendo o projeto na escola e se preparando para lidar com o tema.

    E voltando ao tema, normalmente eu abordo esta questão dentro de um projeto MITOS DA CRIAÇÃO HUMANA E DO UNIVERSO, mostrando várias concepções de diferentes civilizações. Na maioria das vezes, tive bons resultados, mas como comentei acima, algumas pessoas podem se recusar a participar destas discussões.

    Outra situação que vivenciei no MUSEU DA VIDA, FIOCRUZ, foi sobre uma exposição CORPO NA ARTE AFRICANA, tivemos até professores que se recusaram a visitar a exposição com seus alunos pois consideram que toda cultura de origem africana é “demoníaca” (infelizmente esta visão cresce em algumas facções religiosas atuais)…

    É complicado, e não está ficando mais fácil… nestas eras…

    Luiz Claudio
    Forista
    Número de postagens: 7

    Pessoal, quero aproveitar para agradecer a participação de todos a este tópico. Sei que não é um tema fácil, mas acho que é aqui o local para discuti-lo. Paulo Henrique, concordo contigo quando afirma que é função do educador, mas não deveria se limitar à ele – a família deveria ser a protagonista, apresentar os temas transversais e deixar que o indivíduo elabore seu caminho e seu entendimento. E é exatamente assim que tento agir.
    Em cursos e em contatos de maior duração os temas podem ser melhor expostos e debatidos, claro. Ano passado, por exemplo, atuamos em um curso de extensão com a UFABC para professores do fundamental e médio do município. Um dos temas desenvolvidos foi exobiologia, e neste tópico algo próximo de 15% dos inscritos vieram ao local, não assinaram a lista de presença, participaram do questionário elaborado para aquele tema mas não assistiram à aula. Tive a curiosidade de ler as respostas destas pessoas e fiz uma rápida comparação com as demais. Do total, apenas um era homem, e apenas uma das professoras era de física. A grande maioria era pedagoga e o restante matemática e biologia. Mas estranhamente, todos eles estabeleceram maior relação ente exobiologia e os temas de ciência apresentados na escola que os outros. Os que permaneceram foram bastante participativos e o assunto foi o que gerou maior debate.

    Mas voltando ao tema, atividades de longo contato não fazem parte do cotidiano. Aqui no Sabina – Parque Escola do Conhecimento, espaço que abriga o planetário, como em qualquer outro local deste tipo, o feijão com arroz é o atendimento de escolas e grupos durante a semana e grande público aos finais de semana. É deste tipo de atendimento que menciono. Era hábito, quando eu atuava em Vitória, abrir espaço para o debate sobre o tema da sessão ou qualquer outro ligado a astronomia ao final do atendimento. Tive várias experiências maravilhosas nestes momentos, as crianças são super curiosas. Aqui é diferente mas o público é o mesmo. Embora não participasse do agendamento ou das decisões pedagógicas, sei que muitas vezes a visita era modificada ou assuntos eram evitados por conta do interesse ou visão religiosa do grupo escolar que nos visitava. Acho isso errado! Somos um espaço de Ensino e Divulgação em ciências. Defendo que não dá, ou não é “honesto”, parcializar a Informação e a Educação científica. Apesar de ser ateu, defendo o direito de culto e crença à todos. De forma alguma eu acho a religião desnecessária, ou como alguns afirmam um mal necessário. Ela é parte integrante do que nos define humanos. Só não a vejo como obrigatória. Porém, defendo igualmente o direito à Informação e Educação (incluindo científica) sem restrições. É nossa função social, enquanto espaços financiados de uma forma ou outra, para isso! Ou não?

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